cep 20.000 - centro de experimentação poética


 

CEP 20.000 quando, onde, como.

Corria o ano da graça de 1990. Era abril, talvez maio. Eu vagava pelo mal assombrado pátio interno da Escola da Comunicação da UFRJ, na Urca. À convite de alunos, tentava fazer um recital e vender alguns livros. O tempo era de vacas esqueléticas. Collor, recém eleito, confiscara a poupança. O mercado se retraíra ao osso. Minha língua seca não conseguia atrair nenhum incauto inseto para degustar o verbo. Eu dava voltas e não saía do lugar. Corta.

Guilherme Zarvos, escritor inédito então, economista político e ativista da cultura, entrava pelas portas da rua, para promover um evento chamado Terças Poéticas, na Faculdade da Cidade. Ele vinha com o gás de quem tem ouro nas mãos. Corta.

Sem um mínimo de audiência, com a palavra amarfanhada pelo desuso, pensei em correr dali. Talvez para o Pinel, ali do lado. Ou para o bar mais próximo. Então deu-se o encontro, que na Alquimia, chamam de Macktub. Guilherme me convidou para participar da última Terça Poética que iria versar sobre a Poesia dos Anos 70. Heloísa Buarque de Holanda, professora e ensaista, iria fazer o painel pânico da época e eu, apresentar poemas meus e de outros vates d'então. Agradeci o convite e fomos secar umas geladas. A ECO ficou para trás.

Terças Poéticas

Essa idéia de gênio de Guilherme Zarvos era o seguinte: a cada terça ele chamava um nome de renome para falar sobre algum poeta ou movimento. Então Ferreira Gullar falou sobre Augusto dos Anjos. Silviano Santiago discorreu sobre o Carnaval em Bandeira, Oswald e Mário de Andrade. Antônio Carlos Secchin palestrou sobre João Cabral de Melo Neto, com a presença rara do poeta. E fechava com Heloísa falando da poesia dos 70.

Se só assim fosse, já seria o máximo. Mas Zarvos ousou mais. Depois que o sábio terminava sua arenga, Zarvos chamava ao palco, poetas da novíssima geração pra bradar seus versos. Deu-se então o que em física quântica, se chama eureka: os veneráveis portadores do saber sabiam da lira brusca da nova idade e vice versa ao contrário. Na platéia, os brothers que iam ver seus xarás emitirem impropérios em forma de versos conheciam o conhecimento. Zarvos a tudo cerimoniava, com o olhar rútilo de quem encontra o ouro numa esquina.

Eu, então com 40 anos, vibrava com aqueles mitos do verbo (tive o prazer de trocar palavras com João Cabral após a palestra de Secchin) e me estupecfava com a galera sangue bom que fechava o programa. Entre a novíssima guarda, estavam grupos como o Boato, artistas saltimbancos, alunos de jornalismo da PUC e do Pô, Ética !, turma de militantes do verbo e livres atiradores da lira como Guilherme Levi, então com 16 anos, que tremia ao falar poemas psicodélicos sobre o Baixo Gávea. Senti que ali, como há vinte anos antes, a Poesia falava do mundo e da vida das pessoas. Algo, como na química orgânica, denominado dinamite.

CEP: a Poesia propriamente dita.

Da Faculdade da Cidade para o Baixo era um pulo. Zarvos e eu moramos na Gávea. Carlos Emílio Corrêa Lima,  anjo demolidor, estava sempre por perto. Aí entre uma e outra cerveja, achei que o Terças tinha que continuar para o bem da humanidade. Ele argumentou que mesmo com o apoio do RIOARTE, era um projeto de vida curta. Nomes de renome são pessoas caras e ocupadas. Mas (olha a brecha, tatui) havia espaço para um projeto que levasse poesia ao público. O nome CEP pulou da garrafa. Era ágil, rápido, como zap. Centro de Experimentação Poética explicava o resto a quem de direito. Da palavra à ação, fomos ao RIOARTE falar com Tertuliano dos Passos, presidente do Instituto, que nos recebeu com sua reconhecida fidalguia. E logo aprovou a proposta, com firme pressão de Carlos Emílio, editor do jornal Letras & Arte, editado pelo RIOARTE. No projeto inicial, o CEP pretendia ter três oficinas: teatro, música e poesia para dar noção de espaço, tempo e dicção para quem estivesse a fim de se iniciar nos mistérios de ser em cima de um palco. O resultado das oficinas seria mostrado num show mensal no Espaço Cultural Sérgio Porto, do RIOARTE. As oficinas, que seriam realizadas na Faculdade da Cidade, não vingaram. Mas o CEP decolou numa noite de quarta feira de agosto de 1990. Chovia, a divulgação oficial tinha sido ruim a ponto de não ter saído nem na programação diária dos jornais. Mas as nove e meia da noite, molhadas, as pessoas começaram a chegar. As onze, casa cheia. Quando o chamado é forte, a vida fica irresistível.

Fase Heróica

Boato, Emmanuel Marinho, Guilherme Levi, Felipe Rocha, Macarrão, Bruno Levinson, Cara do Tempo, Afax Lá, Coma, Impadinha de Jiló, Anderson Guimarães, João Nabuco, Saliva Voadora levavam a galera do Baixo, da PUC, a gataria. Eu chamava Tavinho Paes, Arnaldo Brandão, Alex Hamburguer, Artur Omar, Carlos Emílio, o incendiário, Mano Melo, Ricardo Basbaum, Márcia X, Aimberê Cezar que levavam os corações veteranos. Nos primeiros tempos, o bar disputava com o palco, as atenções. Com o tempo, as pessoas foram acostumando o ouvido e a poesia começou a soar forte. Porém, mais que a poesia, a música, a performance, o CEP é uma camisa que a pessoa veste . Um pano que envolve. Uma outra pele.

Gracias, gracias, gracias

Nesses cinco anos, muito samba, rock, funk, baião de vários, passou pelo palco do Sérgio Porto. Fausto Fawcett, Arnaldo Brandão, George Israel, Dulce Quental, Waly Salomão, João Gilberto Noll, Bernardo Vilhena, Jorge Salomão, Sérgio Serra, Ana Maria Magalhães, Rogério Skylab, Jorge Mautner, Luciano Trigo, Eudoro Augusto, Barrão, Luiz Zerbini, Sérgio Meckler, André Costa, Márcia Thompson,Mulheres que dizem Sim, Debora Colker, João Nabuco, Marco Abujamra, Pedro Lage, Claufe Rodrigues, Nei Reis, Marcelo Paredão, Manoel Gomes, Marise Lima, Banda Bel, Vagabundo Sagrado, o paulista Todos Os Que Caem, Cafi, Zeca Araújo, Carlos Bevilácqua, Marcos Chaves, Ernesto Neto, Raul Mourão, Neide Archanjo, Maria Gladys, Bianca Ramoneda, Helena Inês, Viviane Mosé, Xico Chaves, Tony Costa, Mimi Lessa entre tantos, passaram por lá para experimentar entre mais de seiscentos jovens artistas. Gostaria de citá-los todos, mas o espaço é curto como a memória. A todos, todas, meu coração de poeta pertence.

Arrependei-vos e rejubilai-vos. O CEP vinte mil está no ar.

Evoé !

 

 



Escrito por cepchacal às 18h51
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