cep 20.000 - centro de experimentação poética


 
 
  O RIO ARDE 
 
  o rio arde nesse dia do poeta - 14 de março. uma festa que rola em santa teresa por ocasião da semana santa gera o maior conflito. contatados alguns dos vários grupos de poesia do rio, apresentaram propostas de trabalho e cachê. a grana, apesar de patrocinadores de peso, segundo a organização, foi encurtada e os projetos receberiam metade do que pediram. a partir do filé de peixe, um a um os coletivos foram se retirando.
o cep 20.000, convidado ao apagar das luzes, inclusive. isso é positivo porque une os grupos. mas é uma situação difícil de resolver, já que poesia, de uma forma geral, não tem público suficiente para interessar ao mercado. é artesanato e não indústria cultural.
difícil se estabelecer uma tabela como acontece na música, no cinema,
onde associações e sindicatos defendem os direitos dos filiados.
além disso, o nível dos poetas é muito irregular. e aí a coisa fica delicada. gosto da poesia do filé de peixe e do ratos diversos. força também para a legendária dupla do prazer e para o saba sauers. o voluntários da pátria, que não conheço, e seu trabalho radical de disseminação de poesia, com tico santa cruz, tavinho paes e edu planchez. tem o falapalavra, que participo com pedro rocha e eber inácio. o sangue novo da madame kaos e do sete novos. e a lenda vida, pioneira da palavralada no rio,  nuvem cigana, que faz o sesc pompéia, 24 e 25 de abril em sampa. 
a poesia tem essa vantagem e desvantagem. já que não tem mercado, se pode experimentar mais, soltar a invenção.
a desvantagem é amargar a falta de reconhecimento público e financeiro.
 lanço, assim espero, outro livro agora em julho:
"contatos imediatos do segundo grau" dirigido obviamente para jovens de 13 a 17 anos. creio que uma boa causa agora é lutar para a poesia chegar aos alunos de primeiro e segundo grau. a música está entrando novamente no currículo escolar. por que não a poesia contemporânea ? abrir frentes, apresentar projetos de recitais às secretarias de educação. se aliar aos grêmios e a grupos de teatro como o CEP 20.000 fez com o Pedro II e o Colégio Estadual André Maurois. o governo federal tem feito sua parte com projetos como o PNBE - programa nacional de biblioteca escolar - que distribui livros gratuitamente nas escolas. entrei com um da editora atica, chamado Poesia Marginal, junto com ana cristina cesar, paulo leminski, chico alvim e cacaso. 30 mil exemplares. a biblioteca  nacional, o instituto nacional do livro, a academia brasileira de letras deviam apoiar - oh ! sonho impossível ! -  financeiramente uma coleção de primeiro livro de jovens autores com recitais de lançamento em escolas públicas e um programa dedicado a poesia com clips e performances poéticas na tv brasil.
sem renovarmos o público de poesia, em breve assinaremos seu atestado de óbito por falta de leitores ou ouvintes. aos poetas resta estar sempre afinando a lira, sem perder de vista o lugar onde seu som vai ser ouvido.
vamos abrir frentes. vamos à luta sempre. com todo o prazer.
 
 FORÇA LUZ ENTUSIASMO  
 




Escrito por cepchacal às 09h14
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      14 de março - dia da poesia     

 

QUEM OUSOU GOZAR,

GOUSOU ?



Escrito por cepchacal às 18h30
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eu quis ser vidente e ver além

le desreglament de tout les sens

eu quis comer rimbaud eu quis beber torquato

eu quis a revolução socialista

estágio necessário do comunismo triunfal

eu quis comer marx eu quis beber fidel

eu quis achar meu centro

pra caminhar pelo fio da navalha

eu quis comer deus eu quis beber chá

 

esses desejos ficaram pelo caminho

como faróis como pedras fundamentais

hoje vendo ali vivendo aqui confiro

o real são camadas de ilusão

cópia da cópia simulacros

cacos de cristal líquido biossimulação

 

o real é mutável mutante

eu sou seu humilde amante

e depois de woodstock

eu só quero o photoshop

 

com seus filtros coloridos

seus desfoques degradês

sua varinha mágica

eu só quero o photoshop

 

eu não quero o corell, o page maker,

o velho power point

eu só quero o photoshop

 

eu quero alterar a realidade

eu quero ir do hippie ao hype

eu quero um blog um fotolog

entrar no seu orkut

eu quero comer o photoshop

eu quero fuder com o photoshop

shop shop fuck fuck

eu só quero o photoshop

 

 



Escrito por cepchacal às 15h55
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palavras

 

                   p/ juliana c.

 

a pena do pavão.

a faca do assassino.

não mais que isso

palavras são.

não !

mais que isso palavras são.

palavras somos.

 

rio 13 / 03 / 08. chacal.



Escrito por cepchacal às 09h15
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 10 MINUTOS DE POESIA

 

Grana miúda. Trabalho escasso. É a melhor época do ano para fazer o que tem que ser feito: selecionar, montar e decorar de 10 a 12 minutos de poesia. Esses dez minutos te levarão o ano todo. Ora incluindo algo novo, um poema recém escrito, um poema jamais falado. Isso dá segurança em chegar em qualquer recital, qualquer parada e ter aquele número preparado. Algo com um certo fôlego que dê para você mostrar suas qualidades e que a platéia possa ter material para avaliar. Chegar num recital e falar um ou dois poemas tímidos, mal lido ou falado, é querer apenas aparecer e se dizer poeta. Sei que muitas vezes não é dado o tempo necessário, tal a quantidade de poetas de um ou dois poemas que querem se fazer de poetas. Mas esse ano, no cep, quero dar mais tempo a cada poeta e se possível, remunerá-lo por isso. Alguém que chega com seus dez minutos bem falados, mesmo que, vá lá, lidos (cachê menor :) , merece recompensa. Como um caçador que se arrisca na mata para conseguir sua presa.

 

Se na música, no teatro, na dança, na pintura, é exigido horas infinitas de estudo e ensaios,  porque a poesia seria uma benção dos céus ? há que ralar, criaturas. Se você acha que a poesia deve ser expressa com a boca, os olhos, a mão, o corpo todo, decore seus textos. Comece com um. Você vai ver que ele muda quando dito em voz alta. Aos poucos ele vai tomando um ritmo próprio, insuspeitável. Muitos poemas meus, tem uma forma escrita e outra falada (certos pronomes: me, lhe, te) transformam o poema se escrito ou falado. A fala arredonda o escrito. O escrito enobrece o falado.

 

Ano passado, decorei 10 minutos (uns 13 poemas entre pequenos a médios) para fazer uma performance nos estados unidos. Gravei um cd para levar, com os textos impressos, bilíngües. Depois apresentei na FLIP, nos lançamentos do meu livro Belvedere e encontros de escritores em todo país. É muito útil para um poeta. Costumo dizer que tenho uns 20 poemas que me levam pela vida.

 

O processo de decorar – eu que não tenho memória de ator ou atriz – é menos penoso do que se imagina. Me sinto como se estivesse rezando uma reza que eu mesmo fiz. É um momento mágico, esse trabalho fundamental para um poeta que acha que a poesia vai muito além do papel.



Escrito por cepchacal às 15h15
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é meus cyberviajandões.

não foi como eu queria. mas ao menos já posso anunciar a data do próximo CEP 20.000.

dia 27 de maio, a última terça do mes. em vez de 10 ceps esse ano como pedi, apenas 8.

 teremos tempo para nos preparar e fazer um CEP de arromba.

vamos tentar permutas e apoios. precisamos de um som bom

e uma divulgação à altura dos 18 anos do

PRIMEIRO E ÚNICO

 CENTRO DE EXPERIMENTAÇÃO POÉTICA

DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO 

 

 o minotauro



Escrito por cepchacal às 22h49
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Escola Letra Freudiana
Rua Barão de Jaguaripe, 231 - Ipanema - Tel.: (21) 2522-3877

 
 
Lugar
 
Convida para encontro com o Poeta
Chacal
__________________________________________________________

PALAVRA CORPO

 

a palavra vive no papel

com vírgulas hífens crases reticências

leva uma vida reclusa de carmelita descalça

 

corpo palavra

 

o corpo aprendeu a ler na rua

com manchetes de jornais

jogadas na cara pelo vento

com gírias palavrões

zoando no ouvido

com gritos sussurros

impressos na pele

 

palavra corpo

 

a palavra quer sair de si

a palavra quer cair no mundo

a palavra quer soar por aí

a palavra quer ir mais fundo

a palavra funda

a palavra quer

a palavra fala:

- eu quero um corpo!

 

corpo palavra

 

o corpo sabe letras com gosto

de carne osso unha e gente

o corpo lê nas entrelinhas

o corpo conhece os sinais

o corpo não mente

o corpo quer  dizer o que sabe

o corpo sabe

o corpo quer

o corpo diz:

- fala palavra!!!

 

palavracorpo corpopalavra

________________________________________________

Quarta-feira,12 de março
às 21 horas


Escrito por cepchacal às 13h52
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 ritmos de boate  

 

eu como a romã, adoro um estrago.

mas diferente da romã, não tenho mais 20 anos.

estou mais para vinicius

que depois de habitar toda e completamente a noite

com seu proverbial whiskinho,

já quase com o prazo de validade vencido,

se alguém lhe convidava para uma noitada.

ele dizia:

não, agradecido. hoje tem baretta na tv.

 

mas ontem no bailinho não teve jeito.

também com a pista cheia de luanas

todos os patifes ficam inspirados

e o super drum an' bass dj patife

teve sua noite de big boy.



Escrito por cepchacal às 16h40
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 VAMOS BATER UM PAPINHO ?

 

vamos retomar a conversa com meu amigo paulo scott sobre recitais de poesia. vamos conversar sobre esse assunto de uma forma mais consistente baseada numa experiência que já dura muito tempo (de minha parte, 33 anos). os saraus proliferam na cidade. vários são os estilos: com ou sem apresentador, luz e microfones, com ingresso, sem ingresso, em teatros, bares, na rua, no calçadão. poetas dos mais variados estilos se sucedem. seria bom receber comentários e dividir experiências. o cep 20.000 com seus 18 anos de atividade, abre o blog para isso. cheguem junto



Escrito por cepchacal às 08h18
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3/3/2008 18:36:00
Papo com Chacal



Por Paulo Scott

(resposta a texto publicado pelo poeta carioca Chacal em seu blog, em 13/01/08, e posteriormente no site Cronópios)



Prezado Chacal, imagino que seja mais do que razoável (penso que é legítimo e necessário) descobrir a pertinência de eventos que exponham a produção literária contemporânea (sua apresentação – tomando aqui certa amplitude na escolha do termo – por meio da oralidade) e melhorá-los, não sob a ótica de produto (contemplando um pragmatismo qualquer e voltado única e exclusivamente à captação de público, assistências, platéia, apoio institucional e por aí vai; sei que essa não é sua preocupação, também nunca foi a minha), mas de um resultado que contemple a reflexão de quem exercita, de quem promove esse tipo de experiência.

Por incrível que pareça (ao menos aos desavisados), não é fácil descobrir a resposta, nem tão pouco projetar uma escola, um paradigma. Como você (embora longe da sua autoridade), presenciei esse tipo de movimento não só aqui no Brasil – posso citar o recente “Desconcertos”, promovido pelo Claudinei Vieira, em São Paulo –, mas também em outros países (com mais atenção, poderia ousar: em Londres e na Alemanha) e sei que a identidade, o modo de fazer é variável e – mesmo sujeito à melhor preparação – decorrente quase por completo da atmosfera do momento.

Somos um país que lê pouco e que não se liberta da funcionalidade imediata e óbvia da sonoridade – essa sonoridade que, por vezes, é um muro que faz da literatura uma coisa estranha, esquisita – para dividi-la com a leitura: com a prática quase pecaminosa (e definitivamente arrogante aos olhos de não alcança o inatingível pico da instrução formal robusta) da leitura. Há um encantamento nessa tradição, que é, infelizmente, comodismo, programa exótico para estrangeiro ver e aplaudir; claro, comento sobre a perspectiva literária e, portanto, não descarto a riqueza das manifestações culturais popularizadas, sobretudo quando se toma o critério da variedade – na verdade, nossa literatura, a exceção de Paulo Coelho, sequer é isso.

Nesse universo, o “PóQUET: ESCRITORES QUE TOCAM / MÚSICOS QUE ESCREVEM”, o “MINI MUNDO SEM COMERCIAL” e, mais recentemente, o “PRIMEIRO POPULAR DE RUÍDO & LITERATURA” são projetos despretensiosos que buscam aglutinar talentos no esquema (o mais simples e franco possível) de improviso e celebração. Claro, a coisa nem sempre funciona cem por cento todas as vezes.

Sei que é fácil falar em improviso quando se tem no palco um Flu, um Cardoso, um Glauco Mattoso, um Jimi Joe, um Fabrício Carpinejar, um Joca Reiners Terron, um Mário Bortolotto, um 4Nazzo, um Marcelino Freire, uma Fernanda D’Umbra, um Michel Melamed, um Daniel Pellizzari, uma Paula Taitelbaum, um Fausto Fawcett, um Frank Jorge, um Xico Sá, um Wander Wildner, uma Angélica Freitas, um Ademir Assunção, um Murilo Biff, uma Cecília Giannetti, um Bruno Brum, um Ricardo Silvestrin, um Daniel Minchoni, mas sei também que é possível se surpreender com poetas e prosadores inexperientes que nunca subiram num palco e que, ao fazerem isso pela primeira vez, ainda assim encantam a todos que os assistem; cito quatro nomes: Bruna Beber, Ana Paula de Freitas, Alice Sant’Anna, Olavo Amaral.

Minhas intenções, meus jeitos, sempre direcionaram os eventos para a catarse, para a desmistificação – nós (e nossa maneira lusitana; apesar de todo o balacobaco) nos levamos a sério demais e sequer nos damos conta de nossa precariedade, de nossa incipiência. Não basta posar de beatnik, de rapper, de sei lá o quê, é necessária a qualidade da palavra. Levando isso em conta, enfatizo que o “PRIMEIRO POPULAR” não é espetáculo; a graça vem do inusitado, nisso tem algo de jazz.

Nada de novo, eu sei, mas funciona (talvez pela energia absurda que eu coloco no negócio ou pelo perfil levemente punk de alguns convidados).

Não me sai da cabeça a idéia de carrossel, um carrossel de palavras com timbres diversos e puxando música justificada como uma espécie de cenário. O ruído não pode dominar a palavra (embora – lembro de uma apresentação minha com a guitarrista Laura Leiner – a prevalência do ruído, eventualmente, funcione melhor do que tudo), o que aconteceu em alguns raros momentos daquele grandioso “PRIMEIRO POPULAR RIO DE JANEIRO DE RUÍDO & LITERATURA” e não foi bom.

Repito sempre, repito mil vezes, que do “PóQUET” ao “POPULAR” está a visível a influência marcante de três grandes artistas (e, por sorte, grandes amigos meus): você (Chacal e o CEP 20.000), o Flu e o Fabio Zimbres, que criou toda uma mística com os seus cartazes. Não foi pouca coisa aquele FREEZONE de 2002. Palavra & Palco, palavra no centro, vibrando, como você diz, mas sem o caráter de espetáculo – o que não está proibido de ocorrer, como ocorreu muito bem com o Marcelo Montenegro & Fabio Brum, no “PRIMEIRO POPULAR SESC SÃO PAULO”.

Acho que deveríamos discutir um formato intermediário, um formato nosso (talvez algo para ser posto em prática no Espaço B_arco, juntamente com o Marcelino Freire e o Marcelo Montenegro). Como todos sabem, já há três anos, venho batalhando um “PRIMEIRO POPULAR NACIONAL”; posso garantir que não é fácil conseguir recursos. O orçamento para quatro noites de encontro gira em valores superiores a cem mil reais. Evento para explorar palavra em torno do palco, no palco.

Encaro o “PRIMEIRO POPULAR” como uma oportunidade do autor, valendo-me de traquejo sulista, "cuspir no próprio texto", no texto que lhe roubou horas de sanidade, dando-lhe um novo peso, estabelecendo uma nova relação – expor-se sempre tem um preço. Quando me apresento com o Flu (o que não chega a acontecer com o inestimável parceiro de palco Daniel Galera, que produz uma trilha muito mais harmoniosa e equilibrada com o texto lido), eu é que persigo a trilha musical, fica bastante, digamos, exótico, mas dá totalmente certo; tem isto de eu vestir uma persona (não é o Paulo Scott escritor que está ali, é um clown mostrando que a literatura não pode ser estigmatizada).

A literatura: a palavra em português.

Tudo é tão pouco, não?

Aqui, então, o meu primeiro retorno ao debate que você, meu querido amigo, propõe. Note que estou longe de conclusões.

Vamos prosseguir?



Escrito por cepchacal às 08h17
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paulo, meu caro gorila,

sinto discordar. mas quero pensar esses eventos de uma forma pragmática, sim. pragmática no sentido de adequar transmissão e recepção, para não se tornar um exercício egóico, onde só a "genialidade" do artista tem vez. pragmática no sentido de ser legal de se ver e com isso ampliar o interesse das pessoas e com isso, o interesse das marcas e com isso, a possibilidade financeira de se poder fazer cada vez de uma forma mais profissional (som. luz, cachês) e confortável, sem perder a paixão rude, quase inexplicável,  com que nos dedicamos a isso. Lembre-se que o Primeiro Popular Nacional custa cem mil. Precisaremos de uma marca - pública ou privada - apoiando.

também discordo um pouco sobre esse caráter catártico que imprimes aos seus eventos, como arma para esconjurar nossa seriedade rastaqüera. concordo ser o nariz em pé e o rabo preso, pragas nacionais. o carater de espetáculo tradicional deve passar ao largo. mas creio com todos os dentes que essa pretensa informalidade é um tipo de expressão foda. que pode e deve ser estruturada, calculada e exercitada. para quando em contato com a galera, possa ter recursos para se desenvolver e atravessar a inexorável, a iniqualável tormenta do momento da ação. acho que o caráter de ritual, de comunhão, deve estar sempre presente em cada performance, em cada evento. ele estará ali sempre na platéia assistindo, dançando, cantando. mas não precisa  necessariamente, estar em cima do palco, entronizado, recebendo virgens sacrificadas para o seu deleite (o que eventualmente, poderia ser maravilhoso).

o que estou tentando dizer é que podemos caminhar num evento performático na estreita trilha entre a intenção e a emoção, entre o carnaval e a quaresma, entre o ser que pensa e faz e o ser que jazz, livre como um colibri bêbado azarando a mariposa em volta da lâmpada. depois dessa golfada de sensatez, só mesmo mandando descer outra gelada. cheers, my friend. vamos em frente.




Escrito por cepchacal às 08h16
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AQUI (re) COMEÇA (de baixo para cima no blog) UMA CONVERSA SOBRE EVENTOS E PERFORMANCES DE POESIA.

 SE VC SE INTERESSA POR TRANSMISSÃO E RECEPÇÃO DE POESIA, FIQUE À VONTADE, META A COLHER. 

 

 

                                 allen ginsberg

 

  NA PONTA DA LÍNGUA 

 

Eu gosto de poesia. Principalmente gosto de falar poesia. Se não gostasse, iria fazer música, artes plásticas, dança. Mas a palavra, para mim, traz essas três artes juntas e ainda vibra por dentro.

Mas eu quero aqui conversar com meu querido amigo Paulo Scott, poeta e prosador gaúcho. Um criador de acontecimentos esdrúxulos.

 

Querido Paulo, nos conhecemos numa parada histórica em Porto Alegre em 2002. Uma parada bancada pela Souza Cruz, chamada Freezone. Um espetáculo com vários formatos.  Tem um bairro chic em Porto Alegre chamado Moinhos de Vento. Nesse bairro tem uma rua que é o point da rapaziada, com bares, botiques, cafés, etc. Os comerciantes de uma rua próxima, Tobias da Silva, quiseram pegar uma carona e pediram a Souza Cruz que fizesse uma ação que profiterolizasse seu público. Então resolveram fazer um nova iluminação para a rua e chamaram esse aqui, um perito em dribles curtos. Eram cinco espaços: três café, uma creperia, uma boutique. Espaços mínimos que cabiam 10, 15 pessoas. Pensei: vamos fazer uma ciranda de poetas e músicos. Com a providencial ajuda do amigo poeta e guitarrista Frank Jorge, convidei duplas de poeta e músico para irem se revezando nos cinco espaços em pequenas performances de 5 a 10 minutos. Nesse caso, a música era fundamental, já que em um público de bairro chic não se imagina o hábito de se ouvir poesia, hábito aliás muito pouco encruado no Brasil. Então a música, pensava eu, iria ajudar na digestão dos textos. A coisa funcionou mais ou menos. O público teve alguma dificuldade de ouvir as performances. Enfim, estavam ali para conversar que é o que se faz num café. Mas várias pessoas se ligaram e valeu. As duplas eram: Paulo Scott e Flu, Daniel Galera e Daniel Pelizzari, Os PoETs (um trio), Diego Silveira  e Antônio Augusto.  Fechava a noite com todos reunidos no Pipe, uma casa noturna do barulho, cada um fazendo sua performance, mais as bandas Wonkavision e Frank Jorge. Eu também falei alguns poemas. A mágica funcionou.

 

Paulo, caro Scott, o que eu quero dizer com isso ? Nada. Tudo. Quero dizer que nessa mistura de texto com música que você tem feito em seus projetos Poquet, em Porto Alegre e Popular Literatura & Ruído em POA, SP, RJ, essa conversa ainda pode melhorar. Deixar alguns músicos soltos no palco, interagindo com poetas e escritores convidados, tem sido uma experiência interessante. No CEP 20.000 que produzo há 17 anos – 18 em agosto – não há essa interação. Os números são independentes: bandas, poetas, vídeo, dança, etc. Nessa interatividade que vc propõe, saem coisas excelentes, principalmente quando o rei dos climas e ambiências, Mestre Flu, está nos botões. Mas às vezes, o ruído predomina e vira uma glossolalia infernal.

 

O que observo é que a poesia é uma planta frágil. Qualquer outra linguagem que se aproxime, tende a obnubilá-la. Assim o teatro, com a interpretação equívoca, assim a música ladrãzinha dos sinos do verbo.

Falta também meu Paulo Scott, os prosadores e poetas tomarem vergonha na cara e pensarem o que é falar um texto. Pensar que essa arte é uma linguagem particular, diferente do teatro, da palavra escrita, do canto, da performance. É tudo isso e nada disso. Exige de quem pratica, um certo estudo e muita prática. Saber extrair sonoridades da palavra, criar ritmos, pausas, interagir com a público, respirar junto com a malta, dar o drible e enfiar a faca no cérebro do touro, docemente, é para poucos. Se o poeta não se garante, vai precisar sempre do apoio de uma musiquinha.

 

Querido Paulo, precisamos começar a pensar performance poética nesse país. Ainda é uma coisa muito recente. A Nuvem Cigana começou a mixar rock com poesia há pouco mais de 30 anos, desde 1975. E quem tem prazer com isso, é quem tem que se coçar. Se depender da academia, da mídia, das editoras, a coisa empaca. A hegemonia da palavra escrita, do livro é quase absoluta, uma tradição secular.

Mas isso está mudando. Isso está mudando.

 



Escrito por cepchacal às 08h16
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